Começa a Copa... de 1942
Com sede no Brasil, o torneio já tem o mérito de pacificar o mundo
Essa newsletter traz... Uma manchete direto do túnel do tempo, na verdade, em uma linha temporal divergente na qual nem a Segunda Guerra Mundial conseguiu atrapalhar os planos da FIFA para seu quarto mundial de seleções.
Ah, esta edição futebolística – e 100% oportunista – é uma parte 3. Por caminhos sinuosos, ela se conecta a edições anteriores. Leia a parte 1 (aqui) e a parte 2 (aqui). E como iniciei depois uma série colada ã Copa 2026, este artigo também está relacionado a outros textos. Leia-os aqui, aqui e aqui.
Foram anos de debates, desfiliações e incertezas. No final, porém, o esporte venceu. A guerra, que assolava a Europa desde a intervenção da Alemanha na Polônia, deu passagem ao futebol. Afinal, a bola não pode parar por causa de desavenças diplomáticas e disputas territoriais. Começa hoje, no Brasil, a Copa do Mundo de 1942.
A escolha do país-sede ocorreu no calor das primeiras incursões bélicas dos nazistas pelo Velho Continente, em setembro de 1939. Na época, o presidente da FIFA, Jules Rimet, idealizador do torneio, estava na América do Sul para avaliar as candidaturas do Brasil e da Argentina. Os alemães, empolgados com a experiência recente de receber os Jogos Olímpicos, também pleiteavam o evento. Mas muitos membros se opuseram à ideia de competir em um país que tem jogado bombas sobre eles.
Outra opção, até para levantar o moral dos europeus abatidos em meio a ruínas, seria levar a competição para a Inglaterra. Por ser uma ilha, o berço do futebol estaria, estruturalmente, menos abalado. A ideia foi engavetada quando o primeiro-ministro Winston Churchill se recusou a aceitar a presença de fascistas em solo britânico. Já se fala em seguir por esse caminho na Copa de 1946, quando certas divergências ideológicas terão ficado no passado.
A entidade máxima do futebol considerou prudente realizar sua festa em território neutro e encontrou no Brasil o espírito acolhedor que precisava para esfriar os ânimos. O anúncio oficial da sede foi feito em 1940, durante o Congresso da Cidade do México (que substituiu o Congresso de Luxemburgo, após mais uma anexação da Alemanha).
Como parte do esforço global pela paz, o presidente Getúlio Vargas fez questão de promover o encontro de nações em prol do esporte e convidou grandes líderes, como Adolf Hitler, Benito Mussolini e Francisco Franco, para acompanhar as partidas de perto. Só Josef Stalin ficou de fora de sua lista, pois a FIFA baniu a União Soviética por invadir a Finlândia, em novembro de 1939.
Outra ausência será a dos argentinos, atuais campeões sul-americanos. Em 1938, eles se recusaram a participar da Copa da França, por terem a candidatura impugnada. A nova desfeita da FIFA levou a outro boicote. Pesou também a escolha favorável a seus maiores rivais no continente. Nem mesmo a neutralidade diplomática da Argentina diante das tensões na Europa foi levada em conta. O único envolvimento dos nossos vizinhos será como hospedaria, pois aceitaram receber a equipe do Egito. Por solicitação de imigrantes alemães e italianos do sul do Brasil, os jogadores do país africano não poderão permanecer em solo brasileiro depois de jogarem suas partidas, marcadas para acontecer em Curitiba. Neste momento, os egípcios estão resistindo à investida dos membros do Eixo para tomar o Canal de Suez.
O grande desafio para os organizadores da Copa nos últimos anos foi acompanhar as constantes alterações do mapa geopolítico para conseguir montar a tabela dos confrontos. Após o sorteio, realizado no Palácio da Guanabara, em maio, a seleção brasileira ainda não sabia com quem disputaria a partida de abertura do torneio. Foi preciso aguardar pela partilha da ex-Iugoslávia por nações do Eixo, até entender que nosso adversário não seria a forte Bulgária e sim o recém-criado estado da Croácia, uma incógnita em campo.
Claro que todos gostariam que a celebração marcada para hoje tivesse como palco a monumental arena que o Brasil esperava construir no coração do Rio de Janeiro. Infelizmente, a crise econômica mundial obrigou o governo a usar a infraestrutura já existente. Sendo assim, a abertura e a final foram programadas para o nosso maior estádio, o Pacaembu, em São Paulo, com 70 mil lugares.
E quem são os favoritos a levar o troféu Deusa da Vitória para casa?
Depois do terceiro lugar na França, o Brasil quer ir além. Começou organizando a própria CBD, que deixou de bairrismos. Jogando em casa e empurrado pelos torcedores, o time do técnico Ademar Pimenta (de volta ao comando após o hiato entre-copas) traz o ídolo Leônidas da Silva, recém-chegado ao São Paulo, e o grande Domingos da Guia, zagueiro do Flamengo, à frente de novatos do calibre do ponta-de-lança rubro-negro Zizinho, o ponta-direita colorado Tesourinha, o goleiro Oberdan, campeão paulista com o Palestra Itália, além de Rui, Bauer e Noronha, trio que compõe o meio-campo do Tricolor Paulista. No ataque, o botafoguense Heleno de Freitas e o vascaíno Ademir Menezes.
Bicampeã mundial (1934 e 1938) e ouro na Olimpíada de Berlim (1936), a Itália tem credencial de sobra para ficar com a taça em definitivo, no caso do tricampeonato. O técnico Meazza manteve os experientes Piola, Ugo Locatelli, Miguel Andreolo e Amedeo Biavati e trouxe novatos como Guglielmo Gabetto, Valentino Mazzola, Ezio Loik e Romeo Menti, todos craques da Torino.
A Hungria, atual vice-campeã, também segue forte, com uma geração que promete dar trabalho, liderada pelo artilheiro Gyula Zsengeller e pelo jovem meio-campista Ervin Kiradi. Outro que não deve ser ignorado é o Uruguai. Detentora de um título em casa (o primeiro mundial, de 1930), a Celeste também venceu, em janeiro, o campeonato sul-americano em cima da Argentina. Atenção para o talentoso volante Schubert Gambetta e o craque Obidulio Varella, bicampeão uruguaio com o Peñarol. Por fim, a Alemanha chega, mais uma vez, reforçada por jogadores da antiga Áustria. Em especial, craques do Rapid Viena, que até ganharam a liga alemã no ano passado. É bom lembrar que Matthias Sindelar, astro austríaco do pré-guerra e que nunca aceitou usar a suástica, faleceu há três anos em circunstâncias ainda não esclarecidas.
Fora das quatro linhas, quem já monopoliza os holofotes é Hitler. Primeiro, porque antes da partida de hoje entre Brasil e Croácia, ele receberá, das mãos do presidente Vargas, nas tribunas de honra do Pacaembu, o inédito Prêmio da Paz da FIFA. A ideia foi de Jules Rimet, após as articulações do líder alemão, no final do ano passado, para que o imperador Hiroito, do Japão, e o presidente Franklin D. Roosevelt, dos Estados Unidos, assinassem um pacto de não-agressão, impedindo uma possível entrada dos estadunidenses na guerra, o que prejudicaria o transporte marítimo ainda mais e, por consequência, a folia do futebol. Ao chegar ao Brasil, Hitler disse aos repórteres apenas que espera cruzar com nossos heróis no caminho para a vitória. Sua previsão para o placar entre as duas seleções beira a fantasia: um 7 a 1 para os visitantes.
Boa Copa pra quem é de Copa.
Entre um jogo e outro, leia as demais partes já publicadas desta newsletter em doses homeopáticas: a Parte 1 e a Parte 2.


